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Senta que lá vem história: Dercy Gonçalves.

publicado em: 27/09/2013

Dolores Gonçalves Costa, conhece? Não? Então deixa eu apresentar com um outro nome: Dercy Gonçalves.

Se tem uma figura nacional por quem eu tenho uma simpatia especial é a Dercy. Acho ela ótima! Não exatamente pelo deboche, peitos de fora ou palavrões que jorravam numa verborragia bizarra. Gosto do jeito lúdico e leve com o qual ela falava dos mais variados assuntos, dos mais leves aos vários episódios de abuso pelos quais ela passou.

Dercy nasceu na cidade de Santa Maria de Madalena, no interior do Rio de Janeiro, em 1907, em uma família bastante humilde. O pai era alfaiate e a mãe era lavadeira. Os avós eram negros. Dercy costumava contar que era praticamente uma menina de rua, no sentido de que vivia solta perambulando pela cidade sem muito cuidado. E é verdade: a mãe dela saiu de casa e sumiu no mundo quando ela tinha 07 anos de idade, depois de descobrir uma pulada de cerca do marido e deixou para trás a prole toda para o sujeito criar.

O problema é que a criatura não era um exemplo de pai exemplar, e apesar de sustentar os filhos, tinha um problema sério com a malvada da cachaça. Assim, sem mãe, praticamente sem pai, Dercy foi trabalhar na bilheteria do cinema para ajudar nas despesas da casa.

Mas olha só que beleza, como a vida é interessante de nos colocar nos lugares em que precisamos estar…Dercy aproveitava que estava na bilheteria e assistia todos os filmes, se descobrindo, se dando conta da alma de artista que ela tinha.

Quando tinha 17 anos, se encantou com o circo que passava pela cidade e resolveu ir atrás, abandonar a vida familiar sofrida e ir atrás do seu sonho. Bonito, né? Mas quem está esperando um enredo de filme americano vai se frustrar… Primeiro porque o pai foi atrás, já que ela era menor de idade e naquela época, artista de circo, atriz e prostituta eram consideradas praticamente a mesma profissão. Segundo porque, quando finalmente conseguiu sair Dercy passou por umas poucas e boas, desde o estupro do namorado em quem confiava, até os percalços que todo artista enfrenta até hoje.

Dercy, apesar da boca sujo e irreverência, era extremamente ingênua, meio criança mesmo. Acho que por isso conseguiu levar tudo de boas como levou. Ela chegou inclusive a se afastar da profissão uma época, quando se apaixonou pelo pai de sua filha, um fazendeiro abastado e casado, que depois de um tempo simplesmente sumiu da vida dela, sem nunca mais dar notícias. E o que ela fez? Respirou fundo, tocou a bola para frente e se tornou a diva (sim, diva mesmo) do teatro brasileiro.

Ela nunca foi uma grande beldade ou teve um corpo escultural, mas era o tipo de pessoa que atraia as atenções por onde passava. Na televisão, chegou a ser a atriz mais bem paga da TV Excelsior. Passou por praticamente todas a emissoras, e chegou a entrar para o Guinness Book, como como a atriz com maior tempo de carreira na história mundial, com magníficos 86 anos de estrada.

As entrevistas dele são um caso à parte. Eu já passei um dia inteiro no youtube me divertindo horrores com as declarações da criatura, e o impressionante é constatar o quão lúcida, sagaz e de bem com a vida ela era, independente de tudo que passou. Uma em especial me chamou muita atenção e acho que foi uma das últimas que ela concedeu, em que o João Gordo, ainda na época da MTV, visitava a casa dela. Ela é incrível, gente. Com 100 anos e quebrando as pernas de qualquer um que tentasse ser esperto com ela.

Ela faleceu em julho de 2008, com 103 (!) anos de idade, em decorrência de complicações de uma pneumonia. Nesse dia o entretenimento ficou um pouco mais careta, menos lúdico e mais politicamente correto, tenho certeza.

Tá bom que eu tenho uma simpatia muito especial com velhinhos e ela já era velhinha desde a época que eu nasci, mas talvez por ela me lembrar de senhorinhas muito especiais que já passaram pela minha vida, eu vejo a Dercy e saem corações de purpurina do meu peito. É muito amor.

Mas sabe o curioso? Eu me lembrei da Dercy da seguinte forma: Hoje é dia de Cosme e Damião, e no Nordeste é costume celebrar a data distribuindo doces entre as crianças e distribuindo caruru e pipoca para os conhecidos. Quando eu era criança uma senhora muitíssimo querida fazia isso todos os anos, e tinha uma história de vida em muitos pontos bastante parecida com a Dercy, então me enchi de ternura e saudade e resolvi dividir com vocês.

Até a próxima e feliz Cosme e Damião!!

categorias : Comportamento
Laís Maia
Laís é advogada, mas com uma alma boêmia para Vinícius de Moraes nenhum botar defeito. Sergipana de criação e coração, voltou para a terra da garoa e se divide entre horas de pessoa jurídica e de falta de filtro social. Tem um quê de autismo, mas na verdade é um doce de pessoa.

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